Relacionamento Tóxico: Porque mulheres heterossexuais encontram dificuldades em romper com relações de abuso?
- 4 de fev. de 2025
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Atualizado: 5 de fev. de 2025
A sociedade frequentemente naturaliza a permanência das mulheres em relacionamentos abusivos, e isso é fortemente influenciado pela tecnologia de gênero e pelo machismo estrutural. Desde cedo e do século passado, as mulheres são socializadas em ambientes que muitas vezes priorizam o sacrifício pessoal e a submissão em nome do amor e do compromisso. Esse aprendizado cultural cria um cenário em que o abuso pode ser naturalizado ou justificado.
A tecnologia de gênero, por sua vez, é um conceito desenvolvido na década de 1980 pela socióloga e feminista Cynthia Enloe. O termo tem sido pesquisado pela filósofa e psicóloga Valeska Zanello em seu livro; Saúde Mental, Gênero e Dispositivos (2018), onde reflete a ideia de que as identidades de gênero são construídas socialmente e podem ser moldadas por práticas e instituições que perpetuam desigualdades.
Em outras palavras, esse conceito explica como as normas e expectativas sociais moldam as identidades de gênero que assim se mantém acriticamente. Isso se manifesta, por exemplo, na forma como as mulheres são frequentemente encorajadas a priorizar as necessidades dos outros em detrimento das suas, muitas vezes colocando-se em segundo plano em suas próprias vidas.
As mensagens subliminares que reforçam a ideia de que “toda relação tem suas dificuldades” podem levar as mulheres a acreditarem que devem suportar comportamentos abusivos como parte de um “compromisso” ou “sacrifício”. “Ruim com ele, pior sem ele”.
Mulheres que enfrentam abusos de qualquer ordem, podem hesitar em se manifestar, temendo o julgamento ou a falta de apoio. Vergonha, constrangimento, isolamento, confusão mental, são aspectos emocionais presentes na vida dessa mulher. Ela pode sentir-se isolada e sem apoio, o que pode levá-la a internalizar a culpa e a responsabilidade pelo abuso, perpetuando um ciclo de silêncio e aceitação.
Além disso, o medo é um fator crucial. Muitas mulheres temem represálias do parceiro, incluindo violência física ou emocional, especialmente se houver crianças envolvidas. O medo do desconhecido como a solidão, a instabilidade financeira e a perda da rede de apoio também pode ser paralisante. A ideia de recomeçar uma nova vida pode parecer mais assustadora do que permanecer em uma situação de dor e sofrimento.
Outro aspecto é a internalização de crenças culturais que minimizem ou justifiquem o abuso. As mulheres podem sentir-se culpadas ou envergonhadas por não conseguirem “fazer o relacionamento funcionar” ou por não atenderem às expectativas sociais de que devem permanecer ao lado de seus parceiros, independentemente das circunstâncias.
Esse estigma pode ser exacerbado por redes sociais e por familiares.
Isso é especialmente evidente em contextos onde a violência de gênero é frequentemente tratada como um problema privado, ao invés de uma questão social que requer ação coletiva. O machismo estrutural desempenha um papel crucial, uma vez que se refere a um sistema que perpetua desigualdades entre gêneros.
Assim, torna-se importante sempre lembrar que nós, mulheres, também fazemos parte desta mudança de perspectiva. Como?
Reconhecer continuamente que nossas necessidades são importantes, onde o respeito e a confiança são premissas básicas nos relacionamentos amorosos.
Nomear, validar para si própria e buscar ajuda de quem confiamos, como serviços de apoio, terapia e redes de acolhimento.
Buscar o protagonismo de nossas vidas, nos engajando em nossos sonhos, anseios e prazeres.
Fomentar a sororidade, solidariedade entre as mulheres em vez da competição.
Buscar autoconhecimento, curar feridas de abandono e rejeição da infância.
Ter o amor próprio como fator de saúde mental e emocional e não confundi-lo com egoísmo
Buscar compreender que o centro de nossas vidas não precisa necessariamente ser um relacionamento ou um homem.
Além disso, ao nomear o abuso, as mulheres podem buscar apoio de forma mais eficaz. Isso fortalece sua capacidade de lidar com a situação. A fala e a nomeação são poderosas, pois transformam experiências de dor em uma narrativa de resistência e superação.
Quando mulheres compartilham suas histórias, dentro de grupos terapêuticos, por exemplo, e denunciam abusos, elas desafiam as normas culturais que perpetuam a violência, criando, assim, uma comunidade de suporte que é vital para a sua recuperação.
Por fim, a coragem de nomear é o primeiro passo para a mudança, não apenas individual, mas coletiva. No entanto, para que as mulheres consigam romper com relacionamentos abusivos, é fundamental que haja um suporte social robusto e acessível, além de uma educação que ajude a desmistificar as questões relacionadas ao abuso e as incentive a buscar ajuda e recursos.




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